Eu sou um romântico! E para o provar peguei na “maria” (viram? romântico!) e levei-a a passear à zona do Montijo, Baixa da Banheira, Alcochete… O sonho de qualquer dama.

Mas hoje era um dia especial: fazíamos 15 anos que ela me atura de namoro e para tornar o passeio ainda mais único decidi marcar mesa para jantar na Taberna dos Cabrões.

17:30, ligo para o dito estabelecimento e peço para marcar mesa, dizem-me para esperar enquanto vão buscar caneta e bloco. Perguntam-me para que horas e digo que é para as 19:30. “Ah não, a essa hora estamos fechados”. Perdão? “Fechamos às 19:00”. Lá se foi a noite romântica. Como é que eu vou agora encontrar uma alternativa, para o nosso 15.º aniversário, que consiga superar a Taberna dos Cabrões?

Peço ajuda ao Pedro Aniceto. Indica-me o “Terceira Parte”.

18:00, ligamos para o número que encontramos no Google e dizem-nos que reservas só por SMS e que depois confirmavam pela mesma via. Enviamos o SMS e ficamos à espera enquanto passeamos em Alcochete.

19:15 e nada de resposta. Parece que temos de recorrer ao TripAdvisor.

Restaurante n.º 1 em Alcochete: uma casa de sushi. “Deus nosso senhor, salvador, pai de Jesus, redentor, figura mitológica inventada há 2019 anos” me livre se vou levar a minha mulher a comer peixe crú em data tão especial.

Restaurante n.º 2 em Alcochete: “Steak House Pateo Alcochetano” – Now we’re talking!

Chegamos à porta do restaurante e somos presenteados com um daqueles painéis de led a dizer OPEN em todas as cores existentes no mundo e arredores.

Depois de entrar um quadro de lousa (acho que agora é obrigatório) com uma seta para a esquerda, apontando para um género de marquise, a indicar “sala de eventos” e outra em frente a indicar o restaurante. Passamos um percurso de obstáculos com subidas, descidas e tapetes de borracha, até que encontramos o restaurante lá ao fundo. Depois da porta dezenas de telas brancas assinadas por clientes.

A Paula vai à frente e escolhe mesa. Eu vou ao WC e quando chego ao pé dela deparo-me com um espectacular arranjo de mesa, com direito a copos milimetricamente alinhados e rosas falsas a segurar os guardanapos de pano.

Olho à volta e sinto-me num episódio do “The Twilight Zone”. A decoração é um mix de convento tibetano, loja de souvenirs, conta de Instagram de um life coach e adega cooperativa.

O rodapé a imitar tijolo, as dezenas de budas tibetanos (ou lá o que é) em forma de quadro ou estátua, quadros de ponto cruz numerados para venda, certificados do TripAdvisor desde o tempo da figura mitológica de que falei lá em cima, papel de parede com manuscritos num daqueles idiomas que usam letras estranhas (quase tão original como as tatuagens com o nome próprio em chinês ou árabe) e a pièce de résistance: painéis com pores-do-sol e frases do Fernando Pessoa.

Se existisse um campeonato do mundo do clichê, esta decoração ganhava-o. Mas assim fácil!

O funcionário aproxima-se e traz as entradas, numa lousa (claro). Simpaticamente entrega-nos as ementas, que passamos a consultar. Primeira página: entradas. Segunda página: carnes. Terceira página: peixes. Quarta página: fotografias dos pratos.

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Decidimos pedir uma “Tábua de carne para 2 pessoas”. Além disso, uma sopa da pedra para o miúdo. Peço também a lista dos vinhos.

Lista não temos, mas se me acompanhar, pode escolher ali no nosso expositor.

Decido aceitar o desafio. O expositor é-o efectivamente, um expositor. Um exemplar de cada vinho vendido no restaurante, perfeitamente alinhados e com o respectivo preço em etiqueta colada na prateleira. Escolho um Quinta da Bacalhoa 2014. <- Este sou eu a ser snob.

Depois de despacharmos as entradas vem a tábua de carne. Não era uma tábua, era uma lousa. Dois enormes e suculentos bifes mal passados com quatro gigantescos camarões grelhados em cima. À volta (e tal como as lousas acho que também é obrigatório) lascas de cinco ou seis frutas diferentes, tropicais claro. À parte, doses individuais de batata frita caseira aos palitos. Mas calma, para cada dez palitos de batata frita normal existe um palito de batata frita rôxa. Pensavam que esta malta tinha esgotado a originalidade na decoração?

Bifes irrepreensivelmente bem cozinhados. Camarões com sal a mais, mas tudo bem, acontece, não é grave. Batatas muito saborosas.

Enquanto comemos a banda sonora é um mix de ópera com música de elevador. O empregado de mesa arrisca um cantarolar aqui e ali.

Acabamos a refeição e pedimos a lista de sobremesas. Optamos por uma mousse de chocolate e uma fatia de bolo de bolacha. Ambas caseiras. Gostei particularmente da originalidade da taça da mousse trazer uma camada de película aderente que o próprio cliente remove. É tipo um “breaking the fourth wall” gastronómico.

Pedimos a conta e um café. Afinal as surpresas ainda não tinham acabado. A “tábua de carne para 2 pessoas” passou a chamar-se “Lousa terra e mar” (ou algo assim parecido). A conta vinha acompanhada de uma rosa (desta vez verdadeira), com um caule para aí com um metro e com um guardanapo de papel à volta. É todo um conceito.

Paula, amo-te muito e mal posso esperar pelo nosso 16.º aniversário. Uma coisa eu te garanto: a nossa vida nunca vai ser monótona.

#margemsul #sítioondesãofeitossonhos #deusnocomando

PS – Já no carro, a meio do caminho para casa, o nosso filho desabafa:

Estou chateado convosco. O vosso comportamento não foi adequado. Passaram a noite a gozar com o restaurante e isso não é correcto.

❤️

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